Seminário
de Matemáticas Gerais Bento de Jesus Caraça
Sérgio
Ribeiro
Economista
Amigos
fizeram-me chegar o "programa das comemorações"
da iniciativa "Centenário do Nascimento de Bento de Jesus
Caraça - Um pensamento, uma obra para o novo século".
E congratulei-me com a iniciativa, embora com alguma pena que a (relativa)
distância me tenha impedido de nela colaborar activamente.
Neste canto do interior de Portugal onde procuro arrumar papeis e
memórias, a iniciativa e o programa reavivaram-me uma referência
sempre presente, a do Professor Bento de Jesus Caraça, de quem
nunca fui aluno mas com quem tanto aprendi.
Senti a necessidade de contar um pequeno episódio que considero
muito significativo e de que talvez seja um dos poucos, senão
o único, a recordar. Decerto não com todo o rigor que
a historiografia exige mas com a lembrança de algo que vivi
e ajudou a minha formação.
No ano lectivo de 1957/58, a direcção da Associação
dos Estudantes do ISCEF era presidida por José Andrade Soares,
já falecido, e eu era vice-presidente e delegado à Reunião
Inter-Associações (RIA) além de ter outras tarefas.
Foi decidido, nessa direcção, assinalar o 10º aniversário
da morte do professor Bento de Jesus Caraça, que tanto prestigiara
a Escola e que era uma referência para os alunos e os professores
que não se queriam abúlicos. E foi decidido que a melhor
maneira de o assinalar seria com a organização de um
seminário de Matemáticas Gerais a que se daria o nome
do Professor.
Pediu-se autorização ao Director, como era imprescindível,
algum apoio financeiro e começou a organizar-se o seminário
com a ajuda de docentes, e com certeza que o Professor José
Ribeiro de Albuquerque foi importante nessa ajuda.
Tudo parecia correr bem, a iniciativa seria um sucesso, até
que o Director, o Professor Armando Gonçalves Pereira, chamou
o Andrade Soares e disse-lhe que o seminário tinha sido muito
bem acolhido pelo Ministério, que se via com o maior agrado
que uma AE tomasse iniciativas como a nossa mas que havia um pequenino
senão: o seminário teria de se chamar "Seminário
de Matemáticas Gerais" sem mais qualquer palavra e sem
qualquer referência a Bento de Jesus Caraça, no título
ou onde quer que fosse.
A direcção da AE reuniu e, com alguma pena e muita indignação,
decidiu não realizar o seminário porque a sua finalidade
primeira fora proibida.
Assim se ia aprendendo, com experiências vividas, o que era
o fascismo. De que Bento de Jesus Caraça foi um dos mais esclarecidos
adversários. Fazendo a política que tem de ser feita,
em todos os momentos e em todas as circunstâncias: a da denúncia
das causas fundas da desigualdade social, da exploração
classista, a da pedagogia, a do didatismo cidadão, sobretudo
junto dos trabalhadores, dos que estão impedidos de uma verdadeira
cidadania porque explorados são.

Zambujal
- Ourém, 8 de Abril de 2001