O aumento dos preços de bens essenciais, como a habitação, alimentação e combustíveis, assume uma dimensão que coloca em crescentes dificuldades a larga maioria dos que vivem e trabalham no nosso país.
Num contexto em que proliferam os baixos salários, em que as remunerações brutas declaradas à Segurança Social revelam uma realidade em que 50% dos trabalhadores aufere valores inferiores aos 1.000€ mensais, a subida dos preços implica, para um número crescente de famílias, que necessidades básicas não são integralmente ou totalmente satisfeitas.
Ao mesmo tempo, as grandes empresas que operam nos sectores em que, precisamente, mais se faz sentir o aumento dos preços, acumulam lucros recorde.
À boleia da política de juros do BCE, a banca ganha nos créditos à habitação e nas comissões, com lucros líquidos diários que passaram dos 4 milhões de euros em 2021 para os 14 milhões de euros nos primeiros seis meses de 2026; a GALP ganha com a subida dos combustíveis, que mesmo antes de impostos, são os quartos mais elevados da UE, com lucros diários a ultrapassarem os 4,5 milhões de euros no primeiro semeaste de 2026, quase três vezes mais que em 2021; com a subida dos alimentos, ganha a grande distribuição, cujos resultados de dois dos maiores grupos (SONAE e Jerónimo Martins) se cifraram nos 2 milhões de euros por dia nos seis primeiros meses deste ano.
É neste contexto que as medidas apresentadas pelo Governo, não só mantêm todas as condições que estão na base desta colossal apropriação e acumulação da riqueza de uma minoria de grandes grupos económicos e seus accionistas, como nada fazem para travar as dificuldades da maioria.
Ao nível do IRS, para 18,8% dos trabalhadores as medidas apresentadas não têm qualquer efeito, uma vez que os seus salários são tão baixos que os colocam fora da aplicação do imposto. Para a maioria, o efeito é irrisório. Segundo projecções do próprio Governo[1], para um trabalhador que viva sozinho e receba uma remuneração mediana, a “poupança anual” é de 12,10€ (1€ por mês) valor insuficiente para fazer face ao aumento de uma dúzia de ovos nos últimos anos, quanto mais para responder aos aumentos dos outros bens e serviços que se tem verificado. Se for uma família com dois trabalhadores e dois dependentes, em que cada um recebe 1.000€, não há qualquer efeito. O mesmo se coloca em relação aos pensionistas. São famílias que têm de optar entre pagar a casa ou colocar combustível para ir trabalhar, entre pôr comida na mesa ou pagar os medicamentos.
A CGTP-IN exige o aumento geral e significativo de todos os salários em pelo menos 15%, num valor não inferior a 150€, bem como a fixação do SMN nos 1.100€ a 1 de Janeiro de 2027.
Perante a situação que vivemos, exigimos a fixação de preços máximos nos bens e serviços essenciais, nos alimentos, nos combustíveis e nas rendas da habitação, bem como que os lucros da banca sirvam para aliviar os encargos com empréstimos dos que foram empurrados para a compra de casa.
Exigimos que se inverta a política cada vez mais subordinada aos objectivos de contenção da despesa pública que abrem as portas ao negócio privado. Como o excedente nas contas públicas do primeiro semestre demonstra, a pressão para conter custos leva a que, para além dos impactos do aumento do custo de vida, os trabalhadores e as suas famílias enfrentem maiores dificuldades em aceder de forma atempada e com qualidade à saúde ou, entre tantos outros exemplos, sejam cada vez maiores as carências com que milhares de alunos se deparam neste regresso às aulas.
O Mês de Acção, Mobilização e Luta, que teve início no dia 17 de Setembro, com acções nas empresas e nos locais de trabalho, em todos os sectores, por todo o País, dá expressão a estas reivindicações, assim como dará a Manifestação Nacional, descentralizada, em Lisboa, Porto e Coimbra, do próximo dia 17 de Outubro, com o lema “Mais salário, melhores pensões e serviços públicos | Contra o aumento do custo de vida | Novo rumo para Portugal!.
Como a luta contra o pacote laboral nos demonstra, a unidade, organização, mobilização e luta dos trabalhadores tem a força necessária para abrir caminho a um novo rumo na vida dos trabalhadores, dos jovens e pensionistas e do país.
DIF/CGTP-IN
Lisboa, 25.09.2026
[1] https://portugal.gov.pt/api/media/edge/Project/Portal-do-Governo/Portal-do-Governo/gc25/documentos/Financas/20260917_IRS_Set2026_simulacoes.pdf