Há decisões políticas que revelam a sociedade que estamos a construir. A proposta do Governo de financiar complementarmente as creches dos sectores social, solidário e privado que pratiquem horários superiores a 11 horas diárias é uma delas.

A Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens – CIMH/CGTP-IN manifesta a sua firme oposição a esta medida do Governo que normaliza aquilo que deveria indignar-nos: uma organização social e laboral que exige que os bebés passem a maior parte do seu tempo acordado em instituições.

Esta medida assenta numa lógica profundamente errada: em vez de criar condições para que as famílias tenham mais tempo para as suas crianças, incentiva a sua permanência durante mais horas nas instituições e aumenta a pressão sobre quem nelas trabalha.

As crianças têm direito ao descanso, a brincar, ao tempo vivido em casa, à construção dos seus vínculos mais profundos. E quem trabalha nas creches tem igualmente direito a ter vida para além do trabalho. O problema não é o tempo das crianças. É o excesso de tempo de trabalho dos adultos.

Em vez de manter as crianças mais tempo nas instituições, deveríamos interrogar:

- Porque é que a organização do trabalho continua incompatível com a parentalidade?

- Porque trabalham os pais e as mães tantas horas?

- Porque persistem salários insuficientes, horários imprevisíveis, elevada precariedade e práticas patronais que penalizam quem cuida?

Cada hora acrescentada ao horário de uma creche representa uma pergunta que o Governo evita responder: porque continuamos a organizar o trabalho como se ninguém tivesse filhos?

A CIMH defende que uma política verdadeiramente amiga da infância deve assumir como prioridade a redução do horário normal de trabalho para 35 horas semanais, sem perda de remuneração, promovendo horários compatíveis com a vida familiar, a parentalidade e o bem-estar.

Não aceitamos que se normalize este rumo de sociedade. O caminho tem de ser exactamente ao contrário: há que reduzir o tempo de trabalho e não prolongar o tempo das creches.

Lisboa, 29.06.2026
DIF/CGTP-IN